Acontece

“Os alunos aprendem agroecologia e garantem alternativa de renda na própria comunidade”

Novos retratos da EPT

Diretor de escola técnica da comunidade Te'yíkue, no Mato Grosso do Sul, defende educação alinhada à cultura indígena e à sustentabilidade

O município de Caarapó (MS) abriga a aldeia indígena Te'yíkue, formada pelas etnias Guarani e Kaiowá. A Escola Estadual Indígena de Ensino Médio Ivy Poty é a responsável pela formação dos jovens do local, que reúne cerca de sete mil pessoas. O diretor da instituição, Valdinei Marques Mendonça, relembra que a escola nasceu com o propósito de estar a serviço dos moradores durante o Fórum Indígena, evento anual organizado pelos Te'yíkue na semana em que se comemora o Dia dos Povos Indígenas (19 de abril), como forma de debater os principais problemas enfrentados pela comunidade e angariar aliados para enfrentá-los. Em 2005, as lideranças da aldeia solicitaram a criação de uma escola de ensino médio para indígenas na cidade.

De lá para cá, também surgiu a demanda para que o centro de ensino incorporasse um curso técnico de agroecologia. “O objetivo era que os alunos aprendessem técnicas da agroecologia, que já fazem parte da raiz e sangue da cultura indígena, como uma alternativa de geração de renda dentro da própria comunidade”, explica o diretor. “Assim, eles não precisam sair do território para trabalhar em fazendas e podem obter renda a partir da produção local e orgânica”.

De acordo com Mendonça, no início a escola enfrentava a falta de infraestrutura e de equipamentos, e chegou a utilizar  barracas de sapé como salas de aula. Atualmente, após anos de reivindicações junto à Secretaria de Educação do Governo de Mato Grosso do Sul, a instituição conta com espaços para horta e estufa voltados ao aprendizado sobre plantio e produção. “Em casa, os estudantes precisam se adequar aos recursos que têm. Por isso, trabalhamos a importância de levar para a família um alimento saudável, que eles próprios podem produzir”, reforça.

Além da formação em agroecologia, o curso técnico também contempla conteúdos de sustentabilidade adequados à realidade dos estudantes, como a preservação de nascentes e matas ciliares e o uso responsável do fogo, para evitar que se alastre e provoque incêndio. “Hoje vemos algumas regiões que antes eram frequentemente tomadas pelo fogo deixarem de sofrer com esse problema”, diz, ao defender a importância da proteção ambiental.

Ao longo dos anos, o corpo docente da escola passou a ser cada vez mais composto por professores indígenas, que conhecem a realidade de seus estudantes e da região. Mesmo entre os profissionais que não pertencem às etnias locais, a cultura escolar valoriza e incorpora a identidade da comunidade Te'yíkue.

“A escola indígena, para ser de fato diferenciada, precisa valorizar as etnias Guarani e Kaiowá. Essa identidade precisa estar presente no cotidiano escolar”, defende o diretor. “Ainda que eu, na gestão, e outros professores não sejamos indígenas, é fundamental termos esse conhecimento para fortalecer o território em que estamos e as etnias que aqui vivem.”

Segundo Valdinei, valores culturais, como a reza, também devem estar presentes na escola. “Os conhecimentos indígenas não podem se perder. Eles precisam ser passados de pais para filhos para que as novas gerações cresçam valorizando sua identidade e não tenham vergonha de ser quem são”, afirma. Esse trabalho é reforçado pelo vínculo próximo que a escola mantém com as lideranças da comunidade indígena, que atuam de forma colaborativa na preservação e valorização cultural.

(Depoimento dado à equipe do Itaú Educação e Trabalho em agosto de 2022)

 

Conheça outras histórias da série Novos Retratos da EPT:
“Comigo, aqui na escola, as mulheres conseguem se ver em uma posição que antes da minha presença era inexistente”
“Podemos perder tudo, menos o conhecimento”
“Aprendizado nunca é pouco para quem quer vencer na vida”