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Itaú Educação e Trabalho apoia elaboração de currículos de referência das cadeias da sociobiodiversidade do babaçu e da juçara no Maranhão

Boas Práticas

Concepção contou com mapeamento de cadeias produtivas, visitas a territórios e consulta a especialistas em bioeconomia

O estado do Maranhão acaba de criar os primeiros currículos de referência das cadeias da sociobiodiversidade do babaçu e da juçara (açaí de touceira), inspirados na experiência do currículo do açaí no Pará. Para elaborar os currículos, a equipe do Itaú Educação e Trabalho (IET) atuou ao lado de gestores da Secretaria de Estado da Educação do Maranhão (Seduc-MA) e do Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA), além de especialistas.

O babaçu tem importância socioeconômica e cultural para o Maranhão, sobretudo por ser fonte de sustento para milhares de famílias. Pode ser aproveitado praticamente por inteiro para a produção de azeite, farinha, carvão vegetal, artesanato, cosméticos, biodiesel, entre outros produtos, e sua coleta e manuseio são parte da cultura da  tradição ancestral indígena e da diáspora africana. Por meio do extrativismo e do beneficiamento do babaçu, mulheres quebradeiras de coco contribuem para a geração de renda, a segurança alimentar e a preservação de conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações. Por isso, fortalecer essa cadeia produtiva significa valorizar também o trabalho, a autonomia e os saberes dessas mulheres.

Em reconhecimento a essa relevância, o ofício das quebradeiras de coco babaçu em Tocantins, Maranhão, Piauí e Pará acaba de ser definido em lei federal (Lei 15.431), de junho de 2026, como uma manifestação da cultura nacional e deve ganhar mais proteção e promoção a partir de agora.

Na criação dos currículos no Maranhão, o primeiro passo foi elaborar um mapeamento completo das cadeias produtivas, cooperativas, associações e movimentos sociais ligados ao babaçu no estado. Em seguida, foram realizadas entrevistas com mais de 15 especialistas de órgãos públicos, instituições de pesquisa, universidades e organizações da cadeia produtiva do babaçu, incluindo a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Secretaria de Estado da Agricultura Familiar do Maranhão, a Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco (COPPALJ), referência na produção de óleo de coco extra virgem orgânico e sustentável, e a Cooperativa das Mulheres Quebradeiras de Coco de Babaçu (CIMQCB).

Os entrevistados destacaram a importância de um diálogo direto com associações e comunidades de São Luís, Chapadinha e Lago do Junco por reconhecerem esses espaços como fundamentais para o desenvolvimento de um currículo conectado aos saberes, práticas produtivas e realidades da cadeia da sociobiodiversidade do babaçu.

Na sequência, o trabalho envolveu visitas aos territórios e diálogo direto com mulheres quebradeiras de coco babaçu, a fim de escutar suas práticas, necessidades e realidades socioculturais. As visitas ocorreram nos municípios de Chapadinha (na Comunidade do Canto do Ferreira) e Lago do Junco, além de Coroatá. Durante as pesquisas, foram estudadas diferentes realidades: desde cooperativas modernas exportadoras até associações bem artesanais que mantêm práticas ancestrais de quebra do coco.

O Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que reúne quebradeiras de coco babaçu de quatro estados (Maranhão, Pará, Tocantins e Piauí) e tem sede em São Luís (MA), atuando na organização política, social e econômica das mulheres, auxiliou a Seduc-MA e o IEMA na indicação das localidades a serem visitadas presencialmente, participou da oficina de planejamento para elaboração do currículo e compartilhou conhecimentos sobre a cadeia produtiva e a sociobiodiversidade do babaçu, o que ajudou na compreensão de aspectos econômicos, sociais, culturais, ambientais e territoriais desse modo de vida.

Adaptação à realidade local e opção por Formação Inicial e Continuada (FIC)

Os currículos foram elaborados junto a consultores técnicos que já haviam participado da criação do currículo do açaí no Pará e equipes da Seduc-MA e do IEMA. Os cursos foram adaptados à realidade local e serão ofertados tanto pela Seduc-MA como pelo IEMA como Formação Inicial e Continuada (FIC), em módulos curtos e flexíveis de até 160 horas totais cada um.

A prioridade do currículo do babaçu no Maranhão é formar mulheres de 25 a 55 anos, muitas sem ensino fundamental completo, por isso a proposta não exige escolaridade mínima. As aulas serão itinerantes: a equipe da escola irá até as comunidades, todos os sábados, em vez de exigir deslocamento das trabalhadoras/estudantes, o que garante mais permanência e participação no curso, tendo em vista que a maioria delas trabalha na quebra do coco durante a semana.

Tanto o curso da cadeia do babaçu quanto o da cadeia da juçara abordam a história e a importância local de ambos, assim como ensinam aspectos de produção e manejo sustentável, assistência técnica e comercialização. “A proposta conecta a educação profissional ao território, à cultura local e à economia real das comunidades e pode ajudar a gerar desenvolvimento e a inspirar outros estados. Por isso, os currículos têm o foco em sustentabilidade, valorização cultural, bioeconomia, empreendedorismo, geração de renda e fortalecimento de mulheres negras, indígenas e quilombolas”, explica Cecília Victor da Silva, analista de implementação do IET.

Desafios do mapeamento e relevância dos saberes tradicionais

Sildiana Nascimento, coordenadora de reconhecimento de cursos técnicos do IEMA, realizou o contato e a mediação com as quebradeiras de coco e intermediou os diálogos, com o suporte técnico da Secretaria de Estado da Agricultura Familiar, da Embrapa e da Universidade Federal do Maranhão, que conta com professores voltados à bioeconomia.

Ela aponta como um dos desafios a aproximação com as quebradeiras de coco para escutarem sobre o mapeamento local. Muitas delas demonstraram resistência inicial à ideia por já terem vivenciado experiências em que pesquisadores e instituições coletaram informações sobre essa atividade ancestral sem oferecer retorno às comunidades. “Além disso, enfrentamos as dificuldades logísticas relacionadas à extensão territorial do Maranhão, às estradas de chão de terra e ao acesso às comunidades mais tradicionais, localizadas em povoados mais afastados”, relata.

Para Sildiana, o principal aprendizado do processo foi reconhecer a profundidade e a sofisticação do conhecimento ancestral das quebradeiras de coco. “Ficou claro, nas visitas, que a educação profissional também precisa aprender com os saberes tradicionais, e não apenas levar conhecimento técnico às comunidades. São práticas desenvolvidas há gerações, e esses conhecimentos precisam ser valorizados em um currículo que desenvolva esses territórios para que as novas gerações enxerguem perspectivas de futuro ali, preservem a ancestralidade, a cultura local e os modos de vida das comunidades e tenham retorno financeiro”, explica.

Formação humana, crítica e integrada à sociedade, à cultura e ao território

Vânia Silva, técnica da Seduc-MA, lotada na Secretaria Adjunta de Educação Profissional e Inclusão Social (SAEP), e com atuação na Superintendência de Ensino Profissional e Integral (SEPI), também participou da elaboração do currículo. Seu papel foi apresentar a Educação de Jovens e Adultos com Educação Profissional e Tecnológica (Ejatec) e suas possibilidades às comunidades das quebradeiras de coco.

Ela ressalta que o currículo dialoga com questões étnico raciais e de gênero, valoriza o conhecimento das comunidades e pode aprimorar o trabalho das mulheres e formar os jovens. Em sua visão, o currículo vai fortalecer a formação dos estudantes de uma forma humana, crítica e integrada porque os prepara não apenas para o mundo do trabalho, mas para que possam se reconhecer em seu papel social, cultural e territorial, a partir do conhecimento da sua realidade e origem.

“A experiência mostrou a necessidade de explicar, principalmente aos jovens, a importância da cadeia produtiva do babaçu, que serve para tantas coisas e tem várias possibilidades financeiras, muito além da simples venda do coco. É gratificante ver o currículo e a matriz do curso sendo construídos em torno dessa cadeia: as pessoas passam a ver o tamanho e a importância desse trabalho no nosso estado”, analisa Vânia.

O próximo passo é comunicar as comunidades visitadas sobre o início da oferta piloto, prevista para o segundo semestre de 2026, que ocorrerá primeiramente em Chapadinha (MA) e englobará os processos de formação de professores para o curso, período de matrículas e início efetivo das aulas.