Acontece

Paraíba consolida e universaliza programa estadual de estágio no ensino médio

Boas Práticas

Em 2025 quase seis mil estudantes da rede participaram da prática profissional iniciada em 2019 e presente hoje em 98 municípios

Criado em 2019 pela Secretaria de Estado da Educação da Paraíba, o Programa Primeira Chance chega a 2025 em sua sétima edição e consolida a universalização iniciada em 2024. A política pública oferece a primeira experiência profissional remunerada a estudantes do segundo semestre do 3º ano do ensino médio integral e integrado das Escolas Cidadãs Integrais Técnicas (ECITs), que ofertam 60 cursos técnicos em 11 eixos tecnológicos.

O estágio, opcional na matriz curricular (o aluno pode optar por TCC), dura seis meses e serve para fins de certificação. A carga horária é de 20 horas semanais, e cada bolsa, paga pela secretaria, tem valor mensal de R$ 500. A secretaria também arca com o auxílio-transporte, quando necessário, e com os seguros, obrigatório pela Lei de Estágio. Ao final, o estudante entrega relatório e recebe nota; a banca avaliadora é facultativa. O chamamento público anual das empresas ocorre em março, e no início do 3º ano o coordenador de estágio orienta os estudantes sobre a escolha do estágio ou do TCC.

Cada escola conta com um coordenador de estágio, que é um professor da base técnica em Regime de Dedicação Integral (40 horas). Ele prospecta empresas para que participem do programa, acompanha estudantes e concedentes e oferece mentorias profissionais aos jovens durante o estágio. Na prática, utiliza 17 horas para a coordenação de estágio, outras 10 horas para dar aulas e 13 para atividades extraclasse como estudos.

Crescimento e universalização

De 2019 a 2023, havia limite anual de vagas ofertadas, indo de 111 em 2019 para 727 em 2023. Com o início da universalização em 2024, o número saltou para 4.330 vagas, garantindo que todo estudante apto que assim desejar possa estagiar. No ano seguinte, em novembro de 2025, já havia 5.863 estagiários (de 8.972 vagas disponíveis).

A expansão em sete anos também se reflete no território e na rede de empresas concedentes de estágio. Em 2019, o programa atuava em 7 municípios, vinculava-se a 40 empresas e tinha orçamento inferior a R$ 1 milhão. Em 2025, alcança 98 municípios, reúne 1.792 concedentes e dispõe de R$ 15 milhões apenas para pagamento das bolsas. A secretaria passou a assumir seguro e auxílio-transporte, tornando o estágio custo zero para as empresas participantes. Parte dos estudantes também estagia em secretarias municipais, na própria secretaria da educação e em gerências regionais de educação.

Na Secretaria de Estado da Educação da Paraíba, o Primeira Chance compete à Gerência Executiva de Educação das Escolas Cidadãs Técnicas (ECITs), que gerencia a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) no estado. Com a universalização, a gestão da parte mais operacional passou das mãos da secretaria para as escolas, que agora captam as concedentes no entorno. À secretaria, cabe atualmente a operação mais macro: pagamento das bolsas, emissão de seguro e repasse do auxílio-transporte.

“As bolsas têm impacto econômico e social, geram experiência profissional, empregabilidade e mais chance de efetivação. Hoje, se todos os estudantes do 3º ano optarem pelo estágio, temos orçamento para pagar todos eles”, explica Mayra Paula, gerente operacional da GEECT.

O avanço trouxe desafios: o volume de bolsas cresceu exponencialmente e exigiu reorganização do fluxo de pagamentos mensais, agora processados pelo Banco do Brasil. Outro gargalo costuma ser o preenchimento incorreto das folhas de registro pelos estudantes, o que pode atrasar os repasses mensais.

Monitoramento e gestão territorial

Em 2024, começou o monitoramento de egressos e das empresas. A avaliação das concedentes mostrou que 90% consideram os estudantes bem preparados. Para Mayra, o programa é escalável e de fácil operacionalização em outros estados: “Precisamos de orçamento, sistema próprio e um coordenador na escola – fatores relativamente simples. Com isso, as economias locais ganham, porque os jovens consomem no comércio. E, quando as empresas aprovam os estudantes, validam o bom currículo da rede”.

O coordenador do Primeira Chance na secretaria, Cláudio Gomes, supervisiona os 136 coordenadores de estágio, realiza formações, dialoga com o banco, tira dúvidas das concedentes, mantém interface com a equipe de TI e revisa o edital anual. O estado também conta com 16 Gerências Regionais de Educação, cada uma com um consultor que faz a ponte diária entre secretaria e escolas. “Sempre há conflitos para resolver. Aprendi que sempre há algo a melhorar. E alguns estudantes querem desistir; então conversamos, orientamos e, quando necessário, buscamos outra concedente para eles”, relata.

Para Pedro Alcantara, coordenador de implementação do Itaú Educação e Trabalho, que apoia o estado da Paraíba no monitoramento do Primeira Chance, é essencial acompanhar os resultados da política pública. “A escuta ao empresário e ao estudante permite verificar não só o grau de satisfação com o programa, mas também fornece evidências para os gestores corrigirem rotas, quando necessário, a fim de aprimorar a iniciativa ano a ano”.

Transformações na ponta

Em Alagoa Nova, município com cerca de 22 mil habitantes, no agreste paraibano, o professor Jefferson Pereira da Silva, coordenador de estágio há dois anos na ECIT Monsenhor José Borges de Carvalho, acompanha 54 estagiários. Eles são das áreas de administração e segurança do trabalho e estão distribuídos entre 35 concedentes, incluindo a prefeitura e empresas locais, de pequeno e médio porte.

“O Primeira Chance gera transformação social e é um divisor de águas para os jovens. É gratificante motivá-los e acompanhá-los. Quando a gente transforma outras pessoas, também é transformado. Uma oportunidade como essa muda vidas. Para eu chegar aqui, alguém também precisou acreditar em mim antes”, afirma Jefferson.

A estudante Maria Luiza Queiroz, 17 anos, estagia no Armarinho Monsenhor Borges, em Alagoa Nova, desde agosto de 2025 e já passou pelas áreas de marketing, vendas e atendimento. “A experiência tem sido enriquecedora porque coloco em prática o que aprendi nos três anos de estudo. Reforcei o marketing da loja e dei o meu melhor nas divulgações nas redes sociais”, conta. Após a formatura, ela pretende continuar estudando administração, em outros cursos ou na universidade.