Pesquisa foi apresentada em evento realizado no Itaú Cultural, em São Paulo, e reuniu especialistas para debater os desafios e as oportunidades dos egressos da EPT no Brasil

O estudo "Para onde vão os egressos da EPT? Empregabilidade e acesso ao ensino superior no Brasil", realizado pelo Itaú Educação e Trabalho, foi apresentado no dia 2 de julho, no Itaú Cultural, em São Paulo. A pesquisa analisa bases nacionais de estudantes concluintes do Ensino Médio em diferentes modalidades nos anos de 2014, 2018 e 2022. A análise mostra que os estudantes da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) apresentam melhores índices de inserção qualificada no mundo do trabalho, maior acesso ao ensino superior e salários superiores aos daqueles que concluíram apenas o Ensino Médio regular. O estudo foi desenvolvido com o apoio técnico dos pesquisadores Alysson Portella e Carolina Veronesi.
Para avaliar a qualidade da inserção profissional, o estudo desenvolveu dois indicadores: o Índice de Qualidade de Inserção (IQI), composto pelas dimensões de renda, formalidade e atividades rotineiras, e o Índice de Trajetória dos Egressos, que considera a continuidade dos estudos e permite observar como o acesso ao ensino superior se relaciona com a qualidade da inserção profissional. Ambos variam de 0 a 1: quanto mais próximo de 1, melhor a qualidade da inserção no mundo do trabalho formal e da trajetória educacional dos egressos.
Os resultados revelam que a EPT é um instrumento de transformação real da vida dos estudantes. Aqueles que cursaram EPT apresentam IQI superior ao dos concluintes do Ensino Médio regular, vantagem que se mantém ao longo do tempo. Além disso, os egressos da educação profissional registram maiores índices de formalização no mercado de trabalho.
Em 2022, último ano analisado, os maiores percentuais de inserção formal profissional foram registrados entre os concluintes do Técnico Subsequente (66,7%) e do Ensino Médio Concomitante à EPT (57,1%). Entre os egressos do Ensino Médio Regular, esse percentual foi de 37,1%, uma diferença de até 29,6 pontos percentuais em favor das modalidades de educação profissional.
Expansão da oferta com qualificação e adaptação
No evento de apresentação da pesquisa, após a apresentação dos dados,, especialistas de diferentes setores participaram de duas mesas de debate para discutir os desafios e as oportunidades dos egressos da EPT no Brasil.
A primeira mesa teve como tema "Empregabilidade e acesso ao ensino superior no Brasil", e foi mediada por Paloma Lima, coordenadora de Monitoramento e Avaliação do Itaú Educação e Trabalho. Na abertura da conversa, a mediadora destacou o momento favorável para o avanço de políticas públicas voltadas à educação. "Temos uma janela de oportunidade com novas iniciativas como o programa Juros pela Educação, que integra o Propag (Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados), e podemos utilizá-la para ampliar as vagas da educação profissional e reduzir desigualdades sociais e regionais", afirmou.
Participante da mesa, João Victor Motta, diretor de Políticas de Trabalho para a Juventude do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), destacou que os dados da pesquisa reforçam a importância da EPT, mas evidenciam também a necessidade de alinhar a oferta de cursos às demandas econômicas de cada território. "Os dados chamam atenção para a desigualdade regional dentro do nosso próprio país e para a necessidade de compreender o arranjo produtivo local de cada estado. Muitas vezes, são ofertados cursos que não têm conexão com aquele território. Ter EPT é melhor do que não ter, mas é preciso expandir essa oferta com qualidade e adaptar as estruturas necessárias para cada curso", disse Motta.
A integrante do Conselho Nacional de Educação (CNE) e relatora das novas Diretrizes Curriculares Nacionais da EPT, Cleonice Rehem, reforçou essa visão ao destacar que o crescimento da educação profissional precisa caminhar junto com o fortalecimento das oportunidades de continuidade dos estudos. "É muito evidente que a EPT vem crescendo, embora ainda exista certo preconceito em relação a essa formação. A pesquisa aponta um cenário positivo para a modalidade e reforça a importância da verticalização da educação profissional, permitindo que estudantes dos cursos técnicos tenham maior facilidade para acessar o ensino superior, considerando os conhecimentos já adquiridos". Segundo Cleonice, alinhar a oferta de cursos às demandas regionais será um dos desafios das novas Diretrizes Curriculares Nacionais da EPT.
Representando o setor privado, Sofia Esteves, fundadora da Cia de Talentos e do Instituto Ser +, trouxe a perspectiva das empresas sobre a contratação de jovens. "Estamos vivendo um momento de grande transformação no mundo do trabalho, impulsionado por tecnologias como a inteligência artificial generativa. A formação acadêmica é como se fosse um “passaporte” para a inserção profissional, mas o “visto” é a parte comportamental. O jovem que escolhe a formação técnica costuma demonstrar mais clareza sobre seus próximos passos e entende que precisará continuar aprendendo ao longo da vida". Ela também destacou que existe demanda por profissionais qualificados. "Os jovens querem trabalhar e as empresas precisam de pessoas qualificadas".
Durante o debate, Silvana Oliveira, superintendente do Itaú Educação e Trabalho, chamou atenção para a necessidade de olhar para as trajetórias dos estudantes e não apenas para a ampliação da oferta de vagas. Ao comentar os desafios da Educação de Jovens e Adultos (EJA), defendeu políticas públicas que ampliem a flexibilidade curricular para atender às necessidades da população adulta. "Precisamos deixar de olhar apenas para a oferta educacional e passar a discutir as necessidades desses estudantes. A formação deve responder às demandas do mundo do trabalho, mas também às expectativas e aos desafios enfrentados pelos jovens. O terceiro setor tem papel fundamental na incidência sobre políticas públicas, produzindo evidências e contribuindo para que a expansão da educação profissional aconteça com qualidade", reforçou.
Barreiras raciais no mundo do trabalho
A segunda mesa abordou o tema "Juventudes negras, equidade e empregabilidade: a qualificação é suficiente para romper barreiras?", conectando os dados da pesquisa do Itaú Educação e Trabalho aos achados do estudo "Juventudes negras e empregabilidade", publicado pelo Observatório Fundação Itaú em 2025. A mediação foi de Alan Valadares, coordenador de Monitoramento, Avaliação e Dados do Observatório.
Os resultados da pesquisa de egressos da EPT mostram que os maiores índices de formalização continuam concentrados entre os concluintes do Técnico Subsequente e do Ensino Médio Concomitante à EPT quando os dados são analisados por raça. Embora pessoas brancas e amarelas apresentem taxas ligeiramente superiores às de pessoas pretas, pardas e indígenas (PPI), as diferenças entre modalidades de ensino permanecem mais expressivas do que as diferenças raciais.
Ao mesmo tempo, o estudo do Observatório Fundação Itaú evidencia que as juventudes negras, apesar de representarem a maior parcela da população jovem brasileira, continuam enfrentando desigualdades estruturais que limitam o acesso à educação, ao trabalho digno e à mobilidade social.
Alyne Jobim, diretora de Articulação e Relacionamento da Superintendência da Educação Profissional (SUEPRO) do Rio Grande do Sul, compartilhou experiências da política de cotas e do monitoramento de egressos desenvolvidos pelo estado. "Temos o papel de dar visibilidade aos vieses inconscientes que atravessam todo o setor produtivo. Quando existe intencionalidade para tornar os processos mais igualitários, conseguimos avançar na igualdade salarial e na mobilidade social." Ela também destacou que mulheres negras enfrentam barreiras ainda maiores para ascensão profissional e defendeu políticas permanentes de inclusão produtiva por meio da EPT.
Na mesma direção, Gibson Trindade, cofundador e gerente executivo da Associação Pacto de Promoção da Equidade Racial, afirmou que a desigualdade social brasileira tem origem racial e que combater esse cenário exige atuação conjunta do poder público e das empresas. "Ainda discutimos a sub-representatividade de pessoas negras em todos os níveis hierárquicos. A barreira não é a falta de educação ou de profissionais qualificados, mas o racismo estrutural. Sem políticas públicas que estimulem e cobrem a inclusão de profissionais negros, essa realidade dificilmente mudará", pontuou.
Já Flávia Freitas, líder de Responsabilidade Social Corporativa da IBM para a América Latina, destacou iniciativas voltadas ao desenvolvimento de competências digitais e à contratação baseada em habilidades. "Não contratamos mais por currículo, mas por habilidades. E isso amplia o acesso de diferentes perfis de profissionais às oportunidades. Queremos que os jovens utilizem a tecnologia como ferramenta de desenvolvimento e de construção de suas trajetórias profissionais".
Encerrando o evento, Silvana Oliveira reforçou que a expansão da Educação Profissional e Tecnológica precisa ser acompanhada por qualidade e produção contínua de evidências. "Ampliar vagas é muito importante, mas a EPT não pode ser medida apenas pelo número de matrículas. Ela deve ser avaliada por sua capacidade de criar oportunidades, reduzir desigualdades e transformar vidas", concluiu.
A pesquisa completa "Para onde vão os egressos da EPT? Empregabilidade e acesso ao ensino superior no Brasil" está disponível no site do Observatório Fundação Itaú.