Elaboração envolveu setor produtivo, sociedade civil e secretaria estadual

O Itaú Educação e Trabalho, em parceria com a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Educação Profissional e Tecnológica do Pará (Sectet), responsável pelo ensino técnico no estado, e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), acabam de lançar o currículo do curso técnico de nível médio em bioeconomia, área que une economia e ecologia.
A elaboração envolveu parcerias entre instituições e escutas ao setor produtivo e a pesquisadores, resultando em uma proposta completa e inovadora. A estrutura curricular foi criada com base na experiência anterior de concepção do currículo do curso técnico na cadeia produtiva do açaí (AçaíTEC), desenvolvido em 2023 por meio de uma parceria entre a Sectet, o BID e o Itaú Educação e Trabalho (IET), e implementado na rede do Pará a partir de 2024.
Mantidas as parcerias e as colaborações, o currículo do curso técnico em bioeconomia nasceu a partir dos aprendizados do currículo do açaí para responder às necessidades cada vez mais emergentes de uso inteligente dos recursos naturais disponíveis e de geração de desenvolvimento com sustentabilidade, conservando-se a biodiversidade.
Assim como na experiência anterior com o açaí, o BID participou como financiador, o IET encarregou-se de estruturar e organizar os encontros com todos os setores do segmento produtivo, da ponta até o final, cuidando também da assessoria técnica e pedagógica e da formação docente, e a Sectet operacionalizou a ideia.
O resultado é um currículo robusto, flexível e adaptável às diversas realidades regionais, não só do Pará, mas do Brasil, que compreende diferentes biomas, podendo, portanto, ser replicado em várias cadeias produtivas, conforme o contexto local. A carga horária de 1.000 horas está distribuída em 12 módulos que podem ser adaptados segundo o número de horas que a rede tiver disponível e para a oferta concomitante ou subsequente ao ensino médio. Os módulos incluem desde a introdução à bioeconomia e sustentabilidade até gestão ambiental, empreendedorismo, marketing, comercialização e desenvolvimento de projetos sustentáveis.
O currículo, em sua versão mais completa, é composto por 51 componentes bem detalhados (ementa; perfil docente; competências e habilidades; objetos de conhecimento; prática e fazeres escolares; avaliação; referências bibliográficas). A proposta apresenta também intersecções dos componentes com habilidades da formação geral básica (BNCC) e com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs). Há ainda uma versão mais enxuta do currículo, com 5 módulos e 18 componentes curriculares, igualmente personalizável pelas diferentes redes de ensino.
Escuta local e respeito a povos tradicionais
Na visão de Beatriz Padovani, coordenadora estadual de Educação Técnica e Tecnológica da Sectet, “houve um processo de escuta muito significativo e extremamente produtivo desde o início da elaboração”. Para ela, “as diversas pessoas que foram ouvidas, de catadores de açaí a industriais e acadêmicos, tiveram relevância real na formulação curricular. Fez muita diferença buscarmos a informação primeiro de quem vive a produção na prática para só depois construirmos o currículo”.
Além disso, segundo Beatriz, o processo respeitou os povos tradicionais e a cultura das pessoas que já trabalham com os produtos locais há muitas gerações, de pai para filho. Ao mesmo tempo, os estudiosos, cientistas e representantes de indústrias contribuíram para que esses povos venham a adequar melhor sua produção em relação à formalização e à sustentabilidade. “O desafio da nossa região é promover desenvolvimento econômico com preservação, ou seja, dar condições de vida para a população e manter a floresta em pé. Por isso, desenvolver currículos que tenham esse viés é fundamental”, analisa.
João Paulo Cossi Fernandes, especialista em educação do BID para o Brasil, explica que o ensino técnico é uma das prioridades da divisão de educação da gerência do setor social do banco no Brasil e, por isso, o Pará recebeu recursos de um fundo criado pelo BID com os governos alemão e suíço para projetos em ensino técnico, assim como recursos adicionais do programa de coordenação regional do BID, Amazônia Sempre.
“O BID começou um diálogo de longo prazo. De imediato, havia um recurso para elaborar o curso de açaí, que foi uma ação inicial, um piloto. Em paralelo, fomos preparando um programa de investimento grande, de longo prazo, aprovado recentemente, para cinco ou seis anos de execução, e cujo objetivo é produzir conhecimento para fazer com que o Pará se desenvolva de forma sustentável.” De acordo com João, uma fortaleza do novo currículo do curso técnico em bioeconomia é, além de ter sido construído de forma colaborativa com todas as camadas do setor produtivo, poder ser modulado para outras cadeias produtivas de outros biomas, o que ajuda os demais estados do país que queiram realizar iniciativas similares.
Inclusão digna de jovens
Daniel Jimenez, analista de implementação do IET, frisa o fato de que criar currículos de economias emergentes como a bioeconomia abre novos caminhos de ingresso ao mundo do trabalho para os jovens, de uma forma qualificada, em sintonia com as novas oportunidades de inclusão produtiva. “A educação profissional pode ser vetor para levar sustentabilidade à floresta, de modo que a exploração de recursos não coloque em risco o ecossistema. Um curso como esse leva para os jovens a consciência de que a floresta pode ser um caminho de desenvolvimento econômico sustentável”, avalia.
Ele relata que a proposta tem sido bem-recebida e, por isso, já teve início a adaptação e a replicação do currículo, com a criação dos currículos de óleos essenciais e óleos graxos da Amazônia e da cadeia produtiva do coco babaçu, que deverão ser implementados em breve, no Pará e no Maranhão.