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Especialistas discutem qualificação e futuro do trabalho a partir de estudo lançado pelo Itaú Educação e Trabalho e Fundação Arymax

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A partir de levantamento elaborado pelo Instituto Veredas, o documento traz recomendações em cinco dimensões inter-relacionadas voltadas a formuladores de políticas públicas, ofertantes de programas, setor produtivo, juventudes e suas famílias    

O estudo “(Re)qualificação das juventudes para um mundo em transformação”, feito pelo Instituto Veredas a pedido do Itaú Educação e Trabalho e Fundação Arymax, foi apresentado em evento realizado na quinta-feira (19), no Itaú Cultural, em São Paulo (SP), e reuniu especialistas para debater sobre inclusão produtiva, políticas públicas e desafios demográficos. A pesquisa mostra como a reversão do bônus demográfico no Brasil, que já está em curso e deve se intensificar nos próximos anos, reforça a urgência de investimento no desenvolvimento de competências, qualificação e requalificação dos jovens entre 16 e 29 anos.

Segundo o levantamento, um a cada três brasileiros estará fora da faixa etária economicamente ativa em 2040, que compreende pessoas de 15 a 64 anos, sendo dependente da força de trabalho dos demais. O estudo estima que, enquanto em 2025 existiam 45 pessoas inativas para cada 100 ativas, essa quantidade passará para 58 em 2050, e para 75 em 2070.

Diante desse cenário, a gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Implementação do Itaú Educação e Trabalho, Cacau Lopes, refletiu, na abertura do evento, sobre como as rápidas e profundas transformações no meio ambiente, nos modos de produção e consumo e nos avanços da tecnologia impactam as relações e ocupações do mundo do trabalho. “Muitos atores, como empresários, governo e setor público têm se mobilizado na oferta de Educação Profissional e Tecnológica, para que os jovens possam ajustar suas trajetórias às demandas emergentes. Mas, grupos de vulnerabilidade têm sido excluídos desse processo, o que aprofunda desigualdades já existentes no país. Entender como estruturar programas efetivos com foco nesse público é um objetivo fundamental de quem desenha políticas públicas”, afirmou Cacau.

A superintendente da Fundação Arymax, Vivianne Naigeborin, também destacou a importância de o país avançar na inclusão produtiva, tendo como base dados e evidências. “Desde 2019, o número de organizações olhando para juventudes e inclusão produtiva cresceu, e é positivo ver que estamos caminhando juntos em um tema que ainda apresenta lacunas importantes. Entendemos a inclusão produtiva como o acesso a oportunidades dignas no mundo do trabalho, com possibilidade de progressão de carreira. Em um contexto de profundas transformações, é fundamental olhar para as mudanças em curso e atuar com base em evidências, e esse é o objetivo do estudo apresentado hoje. A qualificação é uma ferramenta central para o combate à desigualdade”, disse Viviane.

Vahíd Vahdat, pesquisador do Instituto Veredas, apresentou os principais achados do estudo, elaborado a partir da revisão de 211 documentos nacionais e internacionais, além de entrevistas, grupos focais e oficinas com 40 participantes, entre eles jovens, gestores públicos, especialistas e representantes do setor produtivo, durante um período de seis meses em 2025. Além da análise de cenário, o estudo traçou uma série de recomendações e ações em cinco eixos mais críticos. São eles:

1. ajustar os programas de qualificação profissional ao perfil do público-alvo;

2. oferecer programas de qualificação profissional de excelência;

3. melhorar a conexão entre os programas de qualificação profissional e estratégias de desenvolvimento de médio e longo prazo;

4. melhorar a integração entre as diferentes formações, favorecendo a verticalização e a requalificação;

5. fortalecer a governança dos programas e sua orientação a resultados.

Vahíd defendeu, durante o evento, que a inclusão produtiva não deve ser vista apenas como geração de renda aos jovens, mas como a construção de trajetórias de futuro. “O processo de transformação que vivemos exige que repensemos nosso sistema de cuidados e avancemos para uma economia mais produtiva, com menos pessoas sustentando um número maior de dependentes. Ainda persiste uma lacuna no olhar para populações historicamente marcadas por desigualdades e, sem enfrentar esse desafio, essas desigualdades tendem a se aprofundar”, disse.

Políticas de qualificação e requalificação

O evento de lançamento do estudo reuniu diversos especialistas em duas mesas de debates. A primeira delas, com o tema “Desafios e oportunidades das políticas de qualificação e requalificação”, foi mediada por Luana Barbosa da Silva, analista de pesquisa do Itaú Educação e Trabalho. “Falo como representante da Fundação Itaú, mas também como jovem. Minha geração vive um contexto de transição no mundo do trabalho, marcado por mudanças no clima e pela reversão do bônus demográfico”, reforçou.

Fausto Augusto Junior, presidente do Conselho Nacional do SESI, participou do debate e lembrou da evolução da qualificação profissional no país e o papel relevante da certificação na redução de desigualdades. “Estamos em um momento favorável para discutir e enfrentar esse tema, e estudos como este têm papel fundamental. No Brasil, a certificação é um instrumento importante para enfrentar gargalos de desigualdade social”, disse ele.

Em linha com esse pensamento, a professora e pesquisadora do Insper Laura Machado chamou atenção para a importância de se valorizar competências já desenvolvidas pelos jovens fora dos espaços formais de ensino. “Queria destacar a importância da certificação de habilidades adquiridas de forma informal. Do ponto de vista da juventude, isso muitas vezes faz mais sentido do que a formação tradicional. Trata-se de uma etapa anterior à qualificação que ainda poderia ser mais bem explorada”, pontuou. Laura ainda defendeu a necessidade de alinhamento entre formação e demandas do mundo do trabalho. “A qualificação profissional tem potencial para promover mais bem-estar e desenvolvimento no Brasil, desde que atentemos para questões fundamentais: qual qualificação está sendo ofertada, em que momento e com qual finalidade”.

No mesmo painel, João Victor da Motta Baptista, diretor do Departamento de Políticas de Trabalho para Juventude do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), destacou como um dos principais desafios a definição de critérios consistentes para avaliar os resultados das políticas de qualificação profissional. “O mundo do trabalho está sempre em transformação e continuará assim. A questão central é a velocidade dessas mudanças. Precisamos rever a forma como formamos nossos professores e como estruturamos os currículos”, comentou.

Isabella Rangel, diretora da Unidade de Educação Técnica e Profissional da Secretaria de Educação do Estado do Piauí, destacou a experiência do estado com a oferta de ensino integral vinculado à formação técnica. Segundo ela, o modelo tem sido estruturado em diálogo com o setor produtivo, buscando aproximar a oferta de EPT das demandas atuais do mercado de trabalho. “Entendemos que muitos jovens precisam ingressar no mundo do trabalho para contribuir com as despesas familiares, como aponta a pesquisa, e nos adaptamos a essa realidade para garantir sua permanência na escola”.

Casos inspiradores das juventudes

A segunda mesa do evento abordou o tema “Casos exitosos e inspiradores de qualificação e requalificação”, conectando os achados da pesquisa às experiências da juventude brasileira. Carlos Henrique Lima, diretor executivo do Instituto Reciclar, destacou a relevância do estudo para as organizações que atuam com inclusão produtiva de jovens, que podem utilizá-lo como referência para qualificar suas iniciativas. Segundo ele, o Instituto Reciclar atua na articulação entre jovens em situação de vulnerabilidade e o setor empresarial, buscando aproximar expectativas e demandas. “Nosso objetivo é preparar os jovens para ingressar no mundo do trabalho com condições de enfrentar diferentes desafios, como o avanço de novas tecnologias e processos aos quais ele nunca teve acesso ou passou até aquele momento”, explicou.

Na mesma mesa, Daniela Redondo, diretora executiva do Instituto Coca-Cola Brasil, reforçou a necessidade de uma abordagem mais ampla e integrada para o tema. “Para promover a inclusão produtiva de forma efetiva, é preciso pensar de maneira holística. Isso inclui considerar as novas formas de trabalho, as diferentes trajetórias profissionais e como os jovens se relacionam com essa realidade. Não existe uma solução única — as estratégias de qualificação precisam dialogar com a diversidade de caminhos possíveis”, destacou.

Já Simon Schwartzman, sociólogo, pesquisador e membro da Academia Brasileira de Ciências, enalteceu a importância de uma maior articulação entre empresas e o sistema educacional nos processos de qualificação profissional. “A verdadeira alternativa passa por retomar a ideia de que o ensino fundamental precisa ser feito com qualidade, com o desenvolvimento sólido de conhecimentos básicos, para que o ensino técnico não atue apenas como compensação de lacunas”, afirmou. Ele também ressaltou o papel do poder público na indução de políticas estruturantes. “Cabe ao governo exercer um papel ativo na indução de instituições públicas e privadas para a construção de programas de aprendizagem mais sistemáticos e integrados”.

A mesa de debate também ouviu o depoimento da jovem Rayane Morais, suporte técnico de informática (TI) na L’Oréal e egressa do Programa Formare. Ela compartilhou sua trajetória de requalificação e desenvolvimento profissional e lembrou o dilema vivido por muitos jovens brasileiros, entre seguir os estudos e contribuir financeiramente com a renda familiar. Segundo Rayane, a participação no programa, que ofereceu bolsa e experiências práticas em diferentes áreas, foi decisiva para conciliar essas demandas e ampliar suas perspectivas até o ingresso na universidade. “O programa abriu um leque de possibilidades de formação que levo para minha carreira até hoje”, contou.

Encerrando o evento, Eduardo Saron, superintendente interino do Itaú Educação e Trabalho, destacou a relevância da atuação em coalizão para enfrentar desafios complexos de maneira estruturada. Ele enfatizou que a qualificação de jovens é uma agenda intersetorial, que exige o engajamento de diferentes atores da sociedade. Segundo Saron, transformar dados em conhecimento e impacto social é uma responsabilidade compartilhada. “Esse desafio está em nossas mãos. Esses dados representam pessoas, histórias e trajetórias. Pesquisas como esta nos ajudam a nos aproximar delas com mais respeito”, concluiu.

A pesquisa completa está disponível no site do Observatório da Fundação Itaú.